O chefe global de tecnologia M&A do Morgan Stanley, Wally Cheng, afirmou que as aquisições em inteligência artificial abrangerão “todos os tamanhos” e setores, incluindo os mercados público e privado. O banco projeta que o capex corporativo relacionado à IA pode exceder US$ 3 trilhões nos próximos três anos e que os volumes globais de M&A atingirão US$ 7,8 trilhões até 2026. No entanto, análises independentes contestam a tese, apontando que os negócios reais no setor de semicondutores se limitam a acordos de licenciamento, pequenas aquisições de software e contratos de fornecimento, enquanto barreiras regulatórias e o viés dos bancos de investimento lançam dúvidas sobre a concretização de uma onda de M&A.
A aposta do Morgan Stanley
O co-head global de investment banking em IA do Morgan Stanley, Rohan Mehra, tem divulgado a expectativa de um “espectro completo” de atividade de M&A impulsionada por IA, conforme publicação em seu perfil no LinkedIn. Em entrevista à Bloomberg Television, Wally Cheng disse que “a atividade de negócios vai abranger todo o espectro — privado e público”. A tese se apoia na projeção de que o capex corporativo relacionado à IA pode exceder US$ 3 trilhões nos próximos três anos, com volumes de M&A projetados para atingir US$ 7,8 trilhões globalmente. O banco também cita que o M&A global alcançou US$ 4,8 trilhões em 2025, alta de 41% ante 2024.
O que os números mostram na prática
Análises divergentes apontam que o número de negócios não sustenta a tese do banco. O acordo da Nvidia com a Groq, anunciado na véspera de Natal de 2025, foi reportado como uma aquisição de US$ 20 bilhões, mas, segundo a mesma fonte, consistiu em um licenciamento não exclusivo da arquitetura LPU e contratação de engenheiros, não na compra da empresa. As aquisições da AMD (Pensando para redes e Brium para compiladores de software) somaram valores de dígitos únicos bilionários ao longo de dois anos. A compra da Confluent pela IBM, citada pelo próprio Morgan Stanley como evidência de M&A impulsionada por IA, foi um negócio de software, não de infraestrutura de semicondutores. Para críticos, o cenário real é de três grandes incumbentes escrevendo contratos de fornecimento com OpenAI e hiperescaladores, pontuados por pequenas compras de software — o que caracterizaria mais “compras” (procurement) do que fusões e aquisições.
Além disso, os US$ 3 trilhões em capex projetados descrevem gastos com GPUs, redes, datacenters e infraestrutura de energia — fluxos que vão para fornecedores existentes por meio de pedidos de compra, não de aquisições. Quanto maior o capex, mais os incumbentes já estabelecidos se beneficiam, reduzindo a necessidade de M&A.
Barreiras regulatórias elevadas
Mesmo que houvesse interesse em um amplo espectro de M&A em semicondutores, as barreiras regulatórias seriam obstáculos significativos. O CFIUS (Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos) apertou a revisão de transações de chips avançados, tornando qualquer negócio transfronteiriço sujeito a meses de análise e risco real de bloqueio. O regime de controle de exportações dos EUA sobre semicondutores avançados foi expandido em 2025, com 140 novos itens adicionados às listas restritas em dezembro de 2024. Qualquer aquisição envolvendo investidores chineses, laços de manufatura na China ou exposição ao mercado chinês é inviável. No plano doméstico, o escrutínio antitruste sobre consolidação horizontal de semicondutores permanece elevado, tornando improváveis negócios como a compra de um concorrente de GPU pela Nvidia ou uma grande aquisição de rede pela Broadcom.
O viés dos bancos de investimento
Por fim, aponta-se que o Morgan Stanley vem sendo otimista em relação ao M&A há três anos consecutivos: em janeiro de 2024, previu um “retorno” das fusões e aquisições; em outubro de 2025, projetou crescimento de 32% nos volumes globais; agora projeta mais 20% para 2026. Os bancos de investimento têm incentivo financeiro direto para manter o mercado aquecido, pois ganham taxas com aquisições, fusões e financiamentos de dívida. Para os críticos, a previsão do banco deve ser tratada como ativo de marketing de uma organização de vendas, não como análise independente de mercado. Na prática, o volume real de M&A em semicondutores deve permanecer uma fração do que a projeção dos bancos de investimento exige.


